AUTOCURIOSO

Walter Chrysler idealizou a torre do Chrysler Building para eternizar a força e a sofisticação da marca
De arranha-céus icônicos a carros que salvaram a empresa, a marca centenária acumula histórias que misturam ousadia, crise e reinvenção
Um arranha-céu como cartão de visitas
Entre centenas de arranha-céus de Nova York, um deles se tornou ícone tanto da cidade quanto da indústria automotiva: o Chrysler Building. Inaugurado em 1931, com 319 metros de altura, foi o edifício mais alto do mundo por um breve período. Construído em estilo Art Déco e decorado com detalhes inspirados em automóveis, como as gárgulas em forma de radiadores e para-choques, a torre foi concebida como símbolo de poder e sofisticação por Walter Chrysler, fundador da marca.
Diferente de outros prédios famosos, como o Empire State, o Chrysler Building nunca teve um observatório aberto ao público. Hoje, o espaço é ocupado por escritórios e residências exclusivas. Uma das histórias mais curiosas envolve o “Dentista no Céu”, profissional que mantém consultório no último andar do edifício.
Da fundação à sobrevivência na crise
Criada em 1925, a Chrysler se destacou logo no início por apostar em tecnologia e estilo. Mas nem sempre o caminho foi fácil. Nos anos 1970, em plena crise do petróleo, a empresa insistia em carros grandes e gastões. O prejuízo quase decretou seu fim.

Em 1981, a Chrysler lançou os Dodge Aries (na foto) e Plymouth Reliant, conhecidos como os ‘gêmeos K’. Projetados sobre a plataforma K, destacavam-se por acomodar seis passageiros — um diferencial em relação aos carros da época
A reviravolta veio com a plataforma K-Car, liderada por Lee Iacocca, ex-executivo da Ford. Compactos de tração dianteira, como o Dodge Aries e o Plymouth Reliant, salvaram a Chrysler da falência e deram origem às primeiras minivans americanas — segmento que a marca ajudou a criar e popularizar.
Inovações além da estrada
Pouca gente sabe, mas a Chrysler também deixou sua marca fora do mundo dos automóveis. Durante a Segunda Guerra Mundial, produziu motores para bombardeiros B-29, mísseis, munições e tanques, recebendo prêmios do Exército e da Marinha pela eficiência.

Agosto de 1954 — A Chrysler é contratada para produzir cinco mísseis Redstone na Michigan Ordnance Missile Plant, em Sterling Township, local que mais tarde se tornaria a Sterling Heights Assembly Plant do Chrysler Group
Nos anos 1960, a empresa foi contratada pela NASA para ajudar a desenvolver o foguete Saturno I, usado no programa Apollo. E em 1992, apresentou a minivan elétrica Dodge EPIC, uma das precursoras dos veículos elétricos modernos.
Modelos que marcaram época e os menos lembrados
Entre carros de sucesso e outros menos lembrados, a Chrysler deixou um legado variado. O retrô PT Cruiser foi sensação nos anos 2000, embora tenha perdido força com o tempo. O luxuoso 300M, o cupê LeBaron e o conversível Sebring marcaram gerações. Já o imenso Chrysler Imperial 1986, com 30 metros de comprimento e 26 rodas, entrou para a história como “o carro mais longo do mundo”.

Entre os ícones da Chrysler, o PT Cruiser conquistou seu espaço como um verdadeiro sucesso de mercado
Entre os modelos menos lembrados da marca estão o Chrysler Cirrus e o Chrysler Stratus, ambos da família dos chamados Cloud Cars. Apesar de relevantes nos anos 1990, nunca alcançaram a mesma notoriedade dos ícones da marca e acabaram se tornando curiosidades da história da Chrysler.
Já na linha esportiva, a marca eternizou seu nome com os muscle cars: Dodge Charger, Plymouth Barracuda, Road Runner e, claro, o lendário Chrysler C-300 de 1955, com motor Hemi V8 de 300 cv.
Da Daimler à Stellantis
A trajetória da Chrysler também inclui fusões e reviravoltas corporativas. Em 1998, uniu-se à alemã Daimler-Benz, criando a DaimlerChrysler AG, parceria que durou menos de uma década. Em 2009, em meio a uma nova crise, foi resgatada pela Fiat, originando a Fiat Chrysler Automobiles (FCA) em 2014.
Hoje, a Chrysler integra a Stellantis, grupo formado em 2021 pela fusão da FCA com a PSA (Peugeot-Citroën). O futuro da marca aponta para a eletrificação: a meta é ter uma linha 100% elétrica até 2028.
Uma marca que ousa se reinventar
Ao longo de 100 anos, a Chrysler navegou entre altos e baixos, mas sempre se destacou pela ousadia e inovação. Do símbolo de aço inoxidável brilhando nos céus de Manhattan aos projetos que salvaram a empresa da falência, sua história é a de uma marca que se recusa a ser esquecida.
E agora, no século XXI, a Chrysler se prepara para mais uma reinvenção — rumo à mobilidade elétrica e conectada, sem perder o DNA que a tornou eterna.

Hugh Jackman em “Logan” (2017), dirigido por James Mangold. Na cena, o ator surge ao lado do Chrysler E8 — uma versão alongada e exclusiva do Chrysler 300, criada especialmente para o filme
Curiosidades que poucos conhecem sobre a Chrysler e a fábrica de Sterling Heights, em Michigan
- O sistema de diagnóstico pelo painel: em modelos como o 300M, bastava girar a chave três vezes para o painel exibir códigos de falha;
- O Dentista no Céu: consultório instalado no último andar do Chrysler Building ficou famoso em Nova York;
- A Chrysler criou a marca Mopar, em 1937, para fornecer peças e serviços originais. Hoje, Mopar é referência global em performance e customização;
- O filme “Logan”, da Marvel, traz em cena um Chrysler 300, reforçando a presença cultural da marca;
- A fábrica chegava a montar 1.000 carros por dia — até quatro modelos diferentes ao mesmo tempo;
- A montagem contava com 68 robôs que soldavam, movimentavam peças e até abriam e fechavam portas na pintura;
- Tinha uma área exclusiva chamada Metrologia, só para checar qualidade e precisão das soldas;
- A produção do Chrysler 200 foi feito na mesma base do Alfa Giulietta, Dodge Dart e Jeep Cherokee;
- A linha de pintura usava o inovador Friction Drive, sem correntes — mais limpo e sustentável;
- As luzes de inspeção mudavam de intensidade conforme a cor do carro, poupando a visão dos operadores na fábrica.


