CONJUNTURA ECONÔMICA
Recentemente, o IBGE divulgou que o PIB do segundo trimestre cresceu 0,4% em relação ao trimestre anterior. Já em comparação ao mesmo período de 2024, o crescimento foi de 2,2%. Vamos observar o que tem por trás desses números.
Na comparação com o primeiro trimestre, entre os grandes componentes da oferta, somente a agropecuária sofreu desaceleração (-0,1%), após a forte alta de 12,3% que refletiu a supersafra. Já pela demanda, a desaceleração foi disseminada e mais forte na Formação Bruta de Capital Fixo (de 3,2% para -2,2%), traduzida pelos investimentos menores, afetados essencialmente pelos efeitos da alta dos juros pelo Banco Central.
Por outro lado, na comparação com o segundo trimestre de 2024, tanto pela ótica da oferta quanto da demanda, todos os componentes do PIB tiveram crescimento, mas a indústria da transformação (0,0%, após 2,8%) e a construção (0,2%, após 3,4%) ainda caminham bem lentamente.
Nos últimos dois anos, as expectativas para o crescimento do PIB, no início de cada ano, foram superadas pela realidade. Neste ano, por outro lado, o desempenho da economia estará em linha com o projetado desde janeiro, que é um crescimento ao redor de 2,0%. Se nos primeiros seis meses de 2025 a economia cresceu 2,5%, isso significa que o segundo semestre deve ser marcado pela desaceleração – já apontada em nosso texto anterior – reflexo:
- dos efeitos acumulados do aperto da política monetária sobre o consumo, pois, mesmo com a renda crescendo, o consumidor precisa rever suas posições de crédito, decidindo o que manter e como administrar seus recursos. O Banco Central divulgou que a concessão de crédito para a Pessoa Física desacelerou nos doze meses até julho; que a inadimplência da pessoa física deu um salto de 1,2 p.p. desde dezembro, para 6,5%; e que o endividamento das famílias já chega a quase 50% de suas rendas. Mas a massa de recursos recebidos pelas famílias (tanto pelo mercado de trabalho quanto pelo governo) ainda cresce 5% acima da inflação, o que ajuda em parte a explicar a demanda por veículos;
- dos efeitos acumulados do aperto da política monetária sobre os investimentos de setores mais sensíveis aos juros, como construção, indústria de transformação e parte do comércio; e
- da acomodação dos efeitos da supersafra.
Nos últimos anos, o governo gastou com muita intensidade, mas esse efeito diminuiu em 2025, contribuindo com a desaceleração da economia (no segundo trimestre, os gastos foram 0,6% menores). Entretanto, um contraponto pode se dar pelo pagamento dos precatórios e o ressarcimento aos aposentados, além do Plano Brasil Soberano, em que o governo oferecerá até R$ 40 bilhões em linhas de crédito para companhias prejudicadas pelas tarifas implementadas pelo governo dos Estados Unidos.
A propósito, vale mencionar que as tarifas terão efeitos gerais muito pequenos sobre nossa economia: estima-se o impacto de 0,1 p.p. no período de dois anos, essencialmente porque
- a participação dos Estados Unidos em nossas exportações é de cerca de 12%, bem menor do que os 24% de vinte anos atrás;
- boa parte dos produtos exportados ficou isenta; e
- muitos produtos acabarão sendo encaminhados para outros mercados.
Entretanto, isso não quer dizer que não haveria intensos efeitos em alguns setores. Após a confirmação das tarifas de 50% sobre os produtos brasileiros pelo governo dos Estados Unidos, o NEMEA, do Cedeplar – UFMG, estimou que setores como o de produtos químicos e de calçados tendem a ter suas exportações reduzidas, por exemplo.
Mas o concessionário pode estar interessado em saber como essa política tarifária pode atingir também o setor automotivo.
No mesmo estudo, o NEMEA estima uma perda média de US$ 192 milhões, dentro de dois anos, para a venda de veículos a motor e peças, somente em virtude das tarifas americanas sobre o Brasil. Entretanto, essa perda deve ser mais do que compensada pelos efeitos da retaliação chinesa e das tarifas dos Estados Unidos sobre outros países, o que o NEMEA estima traria um efeito líquido positivo de US$ 303 milhões para as exportações. Evidentemente, são números que não necessariamente se confirmarão, mas ao menos expõem a qualidade de algum efeito sobre as vendas externas, se negativo ou positivo. Vale lembrar também que o estudo não leva em consideração alguma política do governo brasileiro, como o caso do Plano Brasil Soberano.
Por fim, é importante nos referirmos às exportações de veículos para a Argentina, que só no primeiro semestre de 2025 cresceram pouco mais de 50% em volume ante 2024. Tendo em vista a desvalorização do peso, em setembro o Tesouro dos Estados Unidos anunciou o compromisso de apoiar a Argentina com medidas que aumentem a disponibilidade de dólares, o que dá fôlego às compras externas do país, incluindo as de veículos.
José Roberto Mendonça de Barros é economista, sócio fundador da MB Associados e articulista do O Estado de S. Paulo. Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (1995-1998) e professor da USP (1967-2002). Atuou em diversos conselhos, recebeu o prêmio “Economista do Ano” (1998) e se destacou no setor financeiro e agronegócio.
Este material divulgado pela ABRAJEEP Press busca proporcionar diferentes perspectivas e informações relevantes aos executivos da Rede. As opiniões expressas são de exclusiva responsabilidade do autor convidado e não refletem, necessariamente, a posição oficial da Associação.


