CONJUNTURA ECONÔMICA
Está se consolidando a expectativa de desaceleração da economia no segundo semestre
No início de dezembro, o IBGE trouxe os dados do PIB do 3º trimestre. Na comparação com o trimestre anterior, a economia brasileira cresceu 0,1%. Já em comparação com o mesmo período de 2024, o crescimento foi de 1,8%.
Na leitura marginal, a indústria foi o componente da oferta que mais cresceu (0,8%), porém refletindo, novamente, o bom desempenho da indústria extrativa (1,7%), ao passo que a de transformação cresceu modestamente (0,3%). Já entre os componentes da demanda, o destaque ficou com o setor externo: as exportações cresceram 3,3%, sobretudo as de extração de petróleo e gás, veículos automotores, agropecuária e celulose. As importações também tiveram alta, porém menos intensa (0,3%).
Quando feita a comparação com o 3º trimestre de 2024, a agropecuária foi o componente da oferta que mais cresceu (10,1%), relacionada tanto com a base baixa de comparação quanto com a boa produção deste ano. No lado da demanda, novamente o setor externo foi destaque: as importações cresceram 2,2%, reflexo do crescimento da economia e do câmbio mais apreciado, enquanto as exportações tiveram alta relevante de 7,2%.
Embora as altas tenham sido disseminadas em todos os componentes do PIB, nota-se uma perda de tração. Na leitura anual, entre o primeiro e o terceiro trimestre, vemos uma escada descendente de crescimento: 3,1%, 2,4% e 1,8%. Na leitura marginal, de 1,5%, 0,3% e 0,1%. Assim, consolida-se o cenário de desaceleração no segundo semestre, cujas motivações trouxemos em nosso comentário anterior.
Esse movimento, entretanto, ainda não apareceu com vigor em todos os indicadores, e o que mais chama a atenção é o mercado de trabalho. No mês de outubro, a taxa de desemprego renovou sua mínima histórica (5,4%), assim como a massa real de renda foi recorde (R$ 357,3 bilhões). Isso é um fator relevante para o Banco Central decidir sua política monetária. De acordo com nossas estimativas, a taxa de desemprego de equilíbrio, ou seja, aquela adequada para que não acelere inflação, deveria ser em torno de 8,0%. Nunca a taxa de desemprego esteve tão baixa como agora e nunca tão distante da taxa de equilíbrio. Isso justifica a pressão inflacionária que se vê especialmente na inflação de serviços e dificulta a tarefa do Banco Central. Os bons números do mercado de trabalho em outubro, porém, podem ser momentâneos se considerada a chegada do fim de ano, período em que aumentam as contratações. Há sinais anteriores que já sugeriam que o mercado de trabalhado poderia estar desacelerando lentamente, como a quantidade de ocupados, que teve a primeira queda em agosto, depois de um longo período de altas.
Os juros elevados impactam diretamente a concessão de crédito. De fato, há uma desaceleração nas concessões em curso, mas com algumas distinções entre as modalidades: a desaceleração é mais proeminente na pessoa jurídica (a concessão real de crédito para recursos livres está em queda interanual desde junho), enquanto para a pessoa física há ainda crescimento (6,1%), com o crédito consignado do setor privado, por exemplo, se aproximando do consignado do setor público.
Quando observados os diferentes destinos para as concessões de crédito da pessoa física, é notável que, embora o volume continue alto, há perda de tração daquelas direcionadas aos veículos, e devem encerrar 2025 praticamente em estabilidade se comparadas com 2024. Isso reflete os juros elevados e alguma cautela dos bancos ao verificarem o aumento da inadimplência – em outubro, a inadimplência para aquisição de veículos atingiu 4,5%, aumento de 1 p.p. no período de 1 ano.
E como deve ser o ano de 2026 para o cenário de crédito automotivo?
Para responder a essa pergunta, devemos observar o que esperar da política monetária adotada pelo Banco Central. São muitas as variáveis relevantes, mas existe um conjunto delas que nos faz crer num afrouxamento dos juros para 2026:
- i) a atividade vai continuar em desaceleração;
- ii) a taxa de desemprego deve ter chegado ao seu limite inferior; e
iii) em conjunto com a apreciação do câmbio e o bom momento da inflação de alimentos, o IPCA deve fechar este ano próximo do teto da meta, o que é uma diferença fundamental em relação ao início do ano.
Assim, existe espaço para a redução dos juros. Um contraponto é que a necessidade de o Banco Central trazer a inflação para a meta no meio de incertezas fiscais e externas deve fazer com que a taxa real fique elevada por mais tempo ainda. Ou seja, no lado do crédito, 2026 será marcado pelos juros nominais menores, mas ainda elevados, o que se traduz se não na redução, ao menos na manutenção da inadimplência próxima dos patamares atuais, enquanto a concessão de crédito deve se manter em desaceleração, em virtude dos juros reais ainda elevados.
Considerando, ademais, que 2026 será um ano eleitoral, o cenário exige cautela dos negócios.
José Roberto Mendonça de Barros é economista, sócio fundador da MB Associados e articulista do O Estado de S. Paulo. Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (1995-1998) e professor da USP (1967-2002). Atuou em diversos conselhos, recebeu o prêmio “Economista do Ano” (1998) e se destacou no setor financeiro e agronegócio.
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