ESPECIAL
No ano do centenário da Chrysler, os bastidores da fábrica de Campo Largo (PR) ganham novo brilho. Inaugurada oficialmente em 7 de julho de 1998, com a produção da picape Dodge Dakota RTV8, a planta marcou a volta da Montadora ao cenário brasileiro com uma operação própria. Um dos protagonistas desse capítulo foi Sérgio Carravieri Lisboa, então Gestor de Logística e Suprimentos da Chrysler, que liderou os esforços de implantação do complexo praticamente do zero — em meio a uma série de desafios técnicos, estruturais e culturais.

Montagem de aço iniciada da planta da Chrysler, em Campo Largo (PR), em 22 de novembro de 1997
“Além das deficiências em estradas, telefonia e sistemas na região, tínhamos a urgência de contratar mão-de-obra qualificada, com domínio de inglês, para viabilizar o modelo ‘Just in Time and Sequency’, algo inédito no mundo até então”, relembrou. A proposta exigia que cada componente chegasse à linha de montagem exatamente na hora e na sequência correta, o que exigiu investimentos pesados da Chrysler e de seus fornecedores.
Apesar da pressão por prazos e da complexidade do projeto, a equipe rapidamente se mostrou à altura. “Nove meses depois, as primeiras unidades já estavam saindo do pátio rumo às revendas. A sensação de ver as picapes alinhadas, prontas para o cliente final, era de pura realização”, afirmou o Executivo.
Um marco para a indústria automotiva nacional
Lisboa afirmou que a chegada da Chrysler ao Paraná teve impacto direto na cadeia automotiva e na economia local e reforçou: “A Dakota marcou o início de uma nova era de reindustrialização no Brasil. Depois vieram Renault, Audi, e a joint venture Tritec entre BMW, Chrysler e Rover, que mais tarde também se integraria à Stellantis”.
No ambiente interno, Campo Largo foi berço de cultura organizacional diferenciada. “Adotamos o Chrysler Production System e medições como SQDCM — Safety, Quality, Delivery, Cost and Morale — que até hoje são referências. Era raro encontrar profissionais com fluência em inglês, mas conseguimos montar uma equipe de excelência”, destacou.
Além das dificuldades técnicas, houve obstáculos inusitados: “No começo, faltava até papel para impressora. Tínhamos que mandar vir de São Paulo. E o clima também não ajudava. Um galpão antes usado para bebidas se transformou em linha de montagem sob frio e chuvas incessantes. Teve ano com mais de 250 dias de chuva — pior que Michigan”, brincou.
Legado que atravessa gerações
Para Lisboa, a fábrica de Campo Largo foi mais do que uma estrutura física — foi um símbolo da retomada de uma marca histórica e complementou: “Foi um sucesso de público. Havia fila de espera, ágio em algumas regiões, e trabalhávamos junto ao time de vendas para ajustar o produto às demandas do mercado”.

Sérgio Lisboa e a equipe responsável pela fabricação da icônica picape Dodge Dakota
Embora o cenário tenha mudado com a fusão com a Daimler-Benz e as turbulências da economia brasileira, o legado permaneceu. “Muitos dos que participaram da implantação estão hoje em posições de liderança, empreendendo ou multiplicando os aprendizados em outras organizações”, afirmou com orgulho.
Entre o passado e o presente da Chrysler
Hoje, Lisboa vê com otimismo o futuro da marca dentro da Stellantis. “O grupo valoriza marcas com história. A Chrysler, com seus modelos híbridos, continua relevante. As minivans marcaram a década de 1990, e agora temos conceitos incríveis como o conceito Halcyon surgindo”, disse. O Executivo esteve recentemente no Detroit Auto Show e se impressionou com a força da Stellantis e relatou: “A Jeep segue em destaque, mas a Chrysler também mostrou seu potencial para o futuro da mobilidade”.
“Para Lisboa, os modelos atuais carregam com orgulho a herança da Dakota. ‘O conforto, a robustez e a tecnologia seguem presentes nos produtos de hoje. E os eventos de test-drive são fundamentais para aproximar o cliente da verdadeira experiência Ram — algo que, na minha visão, deve ser ainda mais explorado’, destacou. Ele também observa a mudança no cenário das marcas: “A Dodge já não está tão presente como antes, mas é impressionante ver a força e o crescimento da Ram no Brasil. As picapes estão cada vez mais nas ruas, assim como a Jeep segue firme na liderança. Agora, só falta o tão esperado retorno da Chrysler”, concluiu.

“A fábrica de Campo Largo foi mais do que uma estrutura física, foi um símbolo da retomada de uma marca histórica”, afirmou Sérgio Lisboa
Mensagem para os pioneiros e o futuro
Nas comemorações do centenário, Lisboa faz questão de deixar uma mensagem aos antigos colegas:
“Todos tiveram papel fundamental no retorno da Chrysler ao Brasil. Carregamos esse legado e precisamos celebrá-lo. Espero que em breve possamos organizar outro reencontro, como o de Curitiba, em 2024. Afinal, fazer parte dessa história é um privilégio.
Parabéns, Chrysler, pelos 100 anos”!


